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terça-feira, 24 de julho de 2012

Belo Monte: uma guerra anunciada no Rio Xingu

Novo documentário expõe problemas enfrentados pelas populações ribeirinhas e comunidades indígenas com a construção de usina hidrelétrica


Foto: Funai

 por Kate Rintoul
O rio Amazonas e suas florestas sempre foram, de uma maneira ou de outra, usadas pelo homem – seja com extração de madeira ou recursos energéticos, por exemplo. Em menor escala, o rio e as florestas fornecem produtos e rendas para as comunidades locais.
Há aqueles, porém, que ainda não estão satisfeitos e procuram outras maneiras de extrair ainda mais do que as pessoas chamam de “pulmão da Terra” – devido ao fator climático da Amazônia, cujas árvores processam nosso lixo (gás carbônico) e nos oferece oxigênio em troca.
O documentário “Belo Monte, Anúncio de uma Guerra” apontou as atenções para essa direção, procurando sensibilizar a sociedade paras as preocupações sociais em torno da construção da barragem hidrelétrica de Belo Monte, no Estado do Pará.
A preocupação sobre este projeto já vem de algum tempo, e aqui no Reino Unido alguns podem se lembrar de celebridades como Sting chamando a atenção para o problema, o que não resultou em mudanças em longo prazo. Sabendo da necessidade de conscientizar mais pessoas sobre este assunto, nessa edição do The Brazilian Post decidimos aprofundar o tema.
A Amazônia já é responsável por fornecer 9% do total de energia do Brasil e a estimativa do governo é que aumentará até 25% se a usina de Belo Monte for construída, porém críticos ao projeto mostram que a real energia produzida será muito menor que a planejada.

Rio Xingu nasce em Mato Grosso, segue para o Pará e desagua no Rio Amazonas
O governo federal e o deputado federal Wandenkolk Goncalves (PSDB / PA) estão pintando um otimista e utópico retrato deste “desenvolvimento”, argumentando que a hidrelétrica será um “modelo” de desenvolvimento a ser seguido por outros Estados brasileiros. Na realidade, a companhia Norte Energias já está falhando em cumprir as metas estabelecidas no contrato inicial e todo o projeto está imerso em corrupção, mal entendidos e manifestações contrárias. Poucos podem vê-lo como um exemplo de desenvolvimento com responsabilidade.
Tanto quanto o rio Amazonas, a hidrelétrica de Belo Monte transpassa questões sociais, políticas e econômicas que ficaram imersas na superfície do Brasil moderno. A própria escala do projeto significa que o estudo de impactos não foi suficiente e talvez por isso o governo falhou em não facilitar o debate público e aberto sobre a questão.
A atual corrida do Brasil por desenvolvimento levou a um momento de grandiosos programas de construção. Alinhado ao novo status de líder mundial em energias renováveis, isso inspirou pesquisas em busca de formas experimentais de utilizar os recursos naturais do país.
Esse desenvolvimento ilimitado e fortalecimento econômico deveriam, é claro, ser bem vindos. Na realidade, porém, esse sucesso tem custos sociais e econômicos que muitos falharam em contabilizar. Alguns argumentam que a ideia de que o Brasil achou uma “fórmula mágica” para produzir energia limpa está equivocado, já que os custos sociais e ambientais não são contabilizados, deixando as comunidades e o povo brasileiro pagarem por esses custos ocultos.
O projeto da hidrelétrica de Belo Monte está sendo desenvolvido no coração de terras indígenas, o que complica ainda mais a questão e levanta debates que retornam ao Brasil colonial que destruiu, e para sempre, a ordem natural do país. Enquanto muito foi feito para proteger e manter os costumes e o ambiente onde vivem comunidades amazônicas, o projeto de Belo Monte prova como isso foi muito mais para a percepção do público do que realmente para reestabelecer o equilíbrio entre o poder dominante e as demais áreas que pretendem ter em sua posse.

Rio Xingu nasce em Mato Grosso, segue para o Pará e desagua no Rio Amazonas
O The Brazilian Post esteve com Joel Nixiwaka Yawanawa, da comunidade indígena Yawanawa, que habita a região norte do Pará, onde a hidrelétrica começa a ser construída. “Isso é triste para nós, é triste para todo mundo. Não apenas os indígenas, mas as pessoas brancas que vivem na beira do rio, os ribeirinhos. Nós pensamos que o projeto de Belo Monte vai destruir tudo na floresta e o rio também”, afirmou.
Segundo Joel, “este é um projeto de desenvolvimento do Brasil, o que é bom. Por um lado significa que o Brasil está crescendo, mas por outro lado esse projeto vai destruir toda a diversidade e os recursos naturais, toda riqueza que o Brasil tem, que é sua natureza, seus animais”.
“Outra questão importante são as vidas das pessoas que moram na região do Xingu, será uma catástrofe, uma destruição geral. Estamos num momento delicado. Mesmo que eu não viva ao lado do Xingu, a floresta é um todo. Nós pensamos que o governo brasileiro tem outras formas de criar energia, não necessariamente destruindo o rio”, argumentou Joel.
A comunidade afetada pelo desenvolvimento do projeto da hidrelétrica já está passando por tempos turbulentos, permanentes conflitos pela propriedade de terra e aumento da secularização. Alguns grupos encontram-se em estado de guerra civil, que só ficará pior com a chegada de um projeto desta dimensão. Já há denúncias de empresas pagando ilegalmente certos grupos sociais e figuras políticas locais para ganhar suporte ao seu trabalho. O que aumenta as tensões.
Joel concorda: “há muitas tribos que estão vivendo situações mais difíceis, há outras que têm suporte político institucional no Brasil. Nós temos formas de conversar com as pessoas e tentar achar modos de ajudá-las. Por trabalharmos com organizações internacionais aprendemos a discutir ideias e ter nossa voz efetivamente ouvida, mas não é o mesmo caso para aqueles que vivem na região do Xingu”.
A história do desenvolvimento do Brasil testemunhou atrocidades e terríveis atos desumanos. Quando povos indígenas e brancos viveram juntos, emergiram questões sociais. Desde as primeiras explorações na Amazônia, e mais recentemente com grandes obras de desenvolvimento na região, esses territórios tornaram-se degradados, com ruas cheias de bordéis, violência, prostituição e doenças.
A floresta e o rio também são cruciais para a preservação dos costumes locais e dos cultos indígenas. “Para nós é muito importante, nós fazemos contato com o mundo espiritual pela floresta. Nossa espiritualidade já foi ameaçada, chegamos a um ponto de quase não praticá-la. Nossa cultura estava desaparecendo, havíamos perdido nossa espiritualidade. Estávamos confusos, não sabíamos, não éramos brancos e também não sabíamos mais quem éramos”.

Para assistir ao filme acesse o site http://www.belomonteofilme.org/
A construção da hidrelétrica já começou e um grupo de documentaristas resolveu fazer algo para denunciar a questão, juntando-se ao crescente número de pessoas que estão se mobilizando contra o projeto, aumentando a consciência das pessoas para as questões sociais e ambientais que envolvem este projeto de desenvolvimento no Brasil.
O filme mostra uma pesquisa profunda sobre o projeto de Belo Monte, e levou dois anos para ser filmado, com 120 horas de imagens em três expedições à região do Xingu, cinco protestos e 90 entrevistas.
O filme foi financiado e produzido de maneira totalmente independente, o que garantiu a possibilidade de produzir uma investigação séria e sem restrições sobre o projeto. Isso permitiu aos produtores trabalharem com liberdade e sem medo durante a produção do vídeo, mas, quando chegou a etapa de edição, os mesmos estavam sem fundos para fazê-lo. Então se utilizaram da nova tecnologia de crowdfunding para finalizar o filme de maneira totalmente independente.
Utilizando o site de crowd-funding Catarse, os produtores do filme pediram suporte financeiro para editar e distribuir o filme online. Eles também acreditam que essa foi outra forma de aumentar a atenção do público para essa questão, dando possibilidades da população participar desse que é um dos grandes debates do Brasil moderno.
Nem todos os entrevistados do filme são contrários ao desenvolvimento do Brasil, de fato eles dão suporte a ele. Mas é interessante notar que especialistas em recursos hidrelétricos afirmam que a melhor maneira de limitar os efeitos negativos da usina de Belo Monte seria construir outras usinas em intervalos regulares ao longo do Rio Amazonas.

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