A compreensão de que estamos todos conectados numa rede invisível e universal nos coloca a necessidade de preservar a humanidade do homem, defender a vida e a Mãe Terra. Mãe boa. De onde tudo brota e para onde tudo volta. Mas que demanda cuidados. oferendas. dádivas. Cecab Ancestral se propõe a disponibilizar e divulgar ensinamentos de nossas ancestralidades ameríndias, africanas,afro-brasileiras e universal. E assim a tradição permanece. Ela vem de antes e vai seguir em frente.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

História do cipó





Narrada por Célio Maru
da etnia Kaxinawá

Era um índio que era casado, pai de dois filhos e morava próximo a um lago  bem antigo, onde várias pessoas haviam morado. Ele fez sua casa e foi morar ali. O nome dele era Duabussã.  Em um dia que amanheceu chovendo, ele olhou para os seus filhos e resolveu caçar para trazer alimentação para eles. Pegou sua flecha e saiu. Ele morava na beira de um sangradouro. Ele saiu do sangradouro e começou a trilhar na beira do lago até chegar próximo a um pé de jenipapo cheio de caça que vinha comer no jenipapeiro.

Ele se alegrou e foi fazer uma espera, uma tocaia. Ao entrar na tocaia, ele escutou algo mexer e, ao olhar,  viu uma juriti das pernas vermelhas. Ele flechou a juriti e quando chegou perto, viu que a juriti estava com um cordãozinho vermelho na perna. Ele estranhou aquilo, pois não morava ninguém por ali. Colocou a juriti na estopa dele e voltou para a tocaia.

Ao sentar na tocaia, novamente escutou um ruído, e pensou: mais uma caça. Levantou-se,  e viu um jacamim mexendo na fruta do jenipapo. Ele flechou novamente  e quando  foi pegar o jacamim, viu que havia um cordão verde na canela esquerda do jacamim. Ele estranhou  pensou: estou pegando só caças criadas, mas vou levar assim mesmo. Colocou na capanga e voltou para a espera.

Não demorou nada, escutou outro ruído. Meio assombrado, ele viu uma [cutiara] roendo a  fruta do jenipapo. Ele flechou a cutiara e, ao pegá-la, viu que ela tinha um brinco na ponta da orelha. Ele ficou cabreiro e decidiu voltar.

Arrumou suas coisas e começou a escutar  um vento muito forte e sons na floresta. Atento e assustado, ele preparou sua flecha e viu uma anta se aproximando. Sem olhar para os lados, a anta veio,  pegou três jenipapos com a mão e saiu.  Ela deu três assovios bem longos e, a cada assovio, jogava um jenipapo no lago. E o Duabussã observava atento.

De repente, na visão dele, a anta se transformou em um ser encantado. Em um minuto, a água do lago começou a espumar, espumar, espumar lá onde o jenipapo havia sido jogado. E a água começou a estrondar. Duabussã ficou assustado.

De repente, surgiu do meio do lago uma mulher maravilhosa. Quando ele olhou para a anta, ela havia se transformado em um belo homem, um ser encantado da floresta. A bela mulher saiu da água e começou a namorar a anta. Duabussã ficou impressionado. Ao terminar de circular com a anta em cima da terra, a mulher voltou e Duabussã não a viu mais. Atordoado, ele pegou sua estopa e foi embora.  Ao chegar em casa, pôs as caças para os filhos, mas não se esquecia do que havia visto e passou a  noite pensando e resolveu voltar para fazer o mesmo que a anta havia feito.

Às 4h da manhã, voltou ao local e fez exatamente o mesmo : jogou os três jenipapos e, em menos de um minuto,  a água começou a estrondar. Não aguentando a força, Duabussã correu e se escondeu atrás de um pé de [samupemba] na beira do lago. Olhando, ele viu que a bela mulher surgia das águas. A mulher olhou para todos os lados procurando a anta e, como não a via, perguntou:


-  Onde você está? Onde você se escondeu? O que está acontecendo?


Escondido, Duabussã se preparava para pegar a mulher que procurava a anta. Quando ela passou  perto dele, ele a agarrou com força. A mulher gritava e ele, em silêncio, segurava-na. A mulher gritava pedindo para ser solta e, como Duabussã não a soltava, ela ameaçou transformar-se em uma serpente. Ele se manteve firme e ela transformou-se numa serpente enorme e Duabussã continuava segurando-a em silêncio. A mulher transformou-se num espinheiro que machucava a carne de Duabussã, mas ele continuou segurando com toda força. Ela se transformou em todos os seres da natureza para que ele a soltasse, mas Duabussã continuava segurando-a firmemente. Quando a mulher viu que não havia jeito de Duabussã soltá-la, ela falou:

     - Está bem. Já que você não me solta mesmo, eu quero saber o seu nome.
Duabussã respondeu:
     - Quero saber o teu primeiro.
     - Eu sou a Sheribari.
     - Eu sou Duabussã. Então nós somos primos. Vamos nos casar.
    - É  verdade. Só que eu não sou daqui e venho de uma  família muito valente, de um outro mundo que você não tem noção. Para casar com você, tenho de pedir permissão ao meu pai.  Agora você me solta pois já estamos combinados.


Duabussã soltou a mulher que foi conversar com os seus parentes. Ela sumiu e em cinco minutos reapareceu detrás da samupemba  e disse:
   
   - Meu pai aceitou que nós nos casemos, mas antes preciso saber se você é solteiro porque se você tiver mulher, não vou me casar.
    - Não, sou solteiro, disse Duabussã.
    - Então estamos casados, agora você vem comigo. Eu vou te levar para a minha terra, disse ela.
Sheribari passou o colírio em Duabussã e pediu a ele:


     - Feche os olhos. Ele fechou e  ela pediu:
     - Abra os olhos.


Quando ele abriu, viu que  estava de pé na [cera] de um bananal, muito limpo e organizado. Ela disse:


     - Agora, preste atenção.
E várias pessoas  começaram a se aproximar, apontando a flecha para ele. Ela disse:


     - Não mexa com ele, pois ele é meu marido e é primo de vocês. Antes de mexer com ele, mexam comigo.


Eles foram caminhando, passando por todos os parentes dela até chegarem próximos ao velho pai dela. Era um velho cabeludo com um vestido enorme, metade homem, metade encantado. Sentado e olhando para o Duabussã, o pai deu as boas vindas a ele e disse à filha:
    
    - Cuide dele, pois enquanto você estiver cuidando dele, ele estará conosco.


Ela passou a cuidar dele durante todo o tempo. Até no sono, ela cuidava dando a ele as melhores imaginações. Ela sabia que, no primeiro descuido, os parentes dela o comeriam, pois eles eram de uma outra natureza. Ela não dormia e ficava no quarto fechado. Ele queria sair, conversar com as pessoas, mas ela não deixava e dizia:


    - Não vá não. É muito perigoso, eu saberei a hora certa de você sair e falar com eles.


Vivendo assim, eles tiveram três filhos. Numa quinta-feira, enquanto Duabussã cochilava, a Sheribari sumiu. Quando ele acordou, não a vendo do lado dele, ele ficou preocupado. Ela tinha saído para pegar o cipó do lado de cá do mundo, na terra do Duabussã. Quando ela voltou, achando que ele ainda estava dormindo, viu que ele já acordara e que havia descoberto a escapada dela. Ele perguntou onde ela tinha ido e, como tudo ali tinha de ser verdadeiro, ela respondeu:


    - Fui lá no seu mundo pegar o cipó, pois lá tem muito cipó, mas apenas um é o misterioso.
Ela levou o cipó para o feitio e disse:


     - Fui buscar o cipó no seu mundo para o meu pai preparar. Em homenagem aos três filhos que nós tivemos, eu sou a dona que permito que eles façam o ritual, mas você não tem permissão nem de ver o ritual. Para você ver, deverá permitir permissão ao meu pai. Duabussã disse:


    - Eu vou porque sou seu marido e já me sinto integrado na sua família e tenho de trabalhar, ajudo  no feitio também. Ela disse:


     - Vá mas você não tem permissão.  Vá fazer o trabalho com ele, mas não pode sair para nada, até para você urinar deve pedir para mim. E ela então abriu a porta para ele. Ele disse ao sogro que iria ajudar a fazer o cipó. O sogro olhou para ele e disse:
- Só pode fazer o cipó quem agüentar beber o cipó.  E Duabussã disse:
- Eu aguento.
- Se você está dizendo que agüenta, então está bem, pode participar. O nome deste cipó é [Huni Pan]. Com isto aqui, estamos preparando um homem verdadeiro, um mestre verdadeiro. Por isto, não se meta se não agüenta. Você agüenta mesmo?
- Agüento.
E Duabussã participou de todo o feitio, toda a curação do cipó, prestando atenção em cada detalhe do feitio. Finalmente, terminaram  o preparo do cipó às 5h da tarde.
E então o sogro disse:
- Você já pode ir tomar banho e se preparar para nós tomarmos o Nixi Pae, o cipó verdadeiro.
Duabussã ainda não sabia o que significava,  pois nunca tinha ouvido falar deste nome. Ele foi se preparar e quando eram 8h em ponto, todos já estavam preparados sentados em roda. A mulher dele disse:
- Fique perto de mim o tempo todo, não saia de perto de mim e não abra a boca nem um segundo.
E Duabussã concordou. Às 9 horas, começou o despacho. O sogro dele levantou-se, bebeu       a bebida e foi servindo um por um até chegar a vez de Duabussã. O sogro serviu e ele bebeu tudo e sentou-se. Após cinco minutos de silencio, o sogro dele começou a cantar bem baixinho. (cantos)
Não demorou nada e veio a tranformação. Duabussã só via serpentes enormes querendo engoli-lo. Ele não aguentou e saiu correndo e gritava:
- Meu Deus me acuda que a cobra está me engolindo.
Todos ficaram em silencio absoluto. Assustado, Duabussã ficou desconfiado. Sua mulher disse:
- Eu te falei que você deveria ficar calado. Você detonou o meu pai. Aí é que esta a chave. Agora meu pai não vai te perdoar. Ele vai te comer.
O ritual parou completamente. Duabussã saiu levado por sua mulher. Ele ficou preocupado mas satisfeito por ter compreendido bem. Passados cinco dias, todos estavam trancados, e Duabussã não via o sogro, os parentes, não via ninguém.
Até que ele disse à mulher que estava vendo um velhinho barbudo do outro lado de uma grota envolto em uma fumaça de defumador. O velhinho estava fazendo um [paneiro] de cipó titica. Ele pediu à mulher para ir ver o velhinho. Ela disse:
- Não vá que ele é meu tio. É um pajé que não vai querer te receber e te ouvir. E Duabussã insistiu:
- Eu quero ir lá ver aquele feitio. Eu quero fazer o paneiro que ele está fazendo. A mulher disse:
- Então vá e volte logo. Apenas cumprimente ele e volte logo.
E Duabussã foi. Chegando lá o tio dela olhou para ele e disse:
- Não tenho tempo para perder com você  não, só vou te avisar para tomar cuidado porque seu sogro está se preparando para te aboquinhar. Ele vai te comer. Eles já estão preparando um belo churrasco. E Duabussã perguntou:
-Como eu posso sair dessa?
O velho disse:
- E muito fácil, muito fácil.
Enquanto isto, sua mulher não tirava o olho dele. E quando ela vacilou, o velho deu um tapa nele. Duabussã caiu e escorregou para perto do sangradouro do roçado dele. O tio da esposa dela era um bodó. A mulher perguntou:
- Cadê o meu marido? Foi você que mandou ele embora e agora é você quem vai entrar no churrasco. Começaram a brigar e o velho escapou dentro de uma goteira de uma raiz de [pachubao].
Passados muitos dias, Duabussã conseguiu chegar em casa. Quando sua mulher e seus filhos o viram, ficaram muito alegres. Duabussã disse:
- Façam rapidamente um altar, um jirau em cima da cumeeira da nossa maloca pois lá será a minha morada. Muita água virá e o meu povo virá me procurar. Não falem que me viram. E Duabussã se escondeu lá e não descia para nada.
Seus parentes do outro mundo o procuravam por toda parte e como não o achavam foram se acalmando e desistindo dele. Mas sua filha caçula sentia sua falta e continuou insistindo em procurá-lo. Neste meio tempo, Duabussã sentiu vontade de sair para ver os pássaros. E ele resolveu fazer um cocar de penas. E foi caçar um tucano e flechou ele. Ele que nunca errava uma flecha, desta vez errou e a flecha foi parar lá na beira do rio. Ele viu um jacu e flechou o jacu, mas errou novamente. E na terceira flechada, ele errou novamente. E ele viu que teria de buscar as flechas que tinham se acabado. Quando ele chegou perto do rio, sua filha do outro mundo vinha descendo e o viu. Ela disse:
- Eu estava te procurando, meu pai. Como você apenas me fez, agora eu vou te engolir. E engoliu o dedão do pé dele. Ela resolveu chamar sua irmã mais velha que veio e comeu até o joelho dele e a filha chamou a mãe e a mãe veio e comeu ele inteiro.
Ele começou a gritar pela família dele e a família veio e quando chegou viu que a serpente, a jibóia já havia engolido ele. A família matou a jibóia e levou ele todo quebrado, só o coração estava batendo.
- Vocês me salvaram. Vou dizer duas coisas a vocês. Eu vou morrer e para vocês falarem comigo façam o que estou mandando. Procurem todos os cipós da floresta e tragam para mim.
Eles procuraram todos os cipós até que encontraram o cipó certo.
- Agora tragam todas as folhas que existe nesta floresta. E começaram a procurar todas as folhas até que acharam a chakrona.
Trouxeram a folha e ele disse:
- Agora cortem-na em pedaços e batam-na. Quando terminaram de fazer o preparo, ele disse ao cunhado:
- Vá chamar todo o nosso povo da aldeia porque agora nos vamos subir para o céu. De agora em diante, para  falarem comigo vocês devem fazer este preparo com este cipó e esta folha. De lá, através desta bebida,  eu vou dar os ensinamentos a vocês. Eu tenho muito a dizer para vocês, mas só  vou ensinar a partir deste feitio; vou morrer e me enterrem em um lugar bem distante na floresta. Depois de três meses, do meu lado direito, nascerá o cipó [ni huni] para vocês. Nestes três meses, eu me transformarei neste cipó e é através dele que vocês se encontrarão comigo.
O cunhado dele foi e quando chegou lá se distraiu com as mulheres bonitas que viu e esqueceu de dar o recado. Quando o cunhado ouviu um barulho imenso, lembrou-se de dar o recado. O povo se arrumou depressa e foi encontrar Duabussã que disse:
- Para vocês me encontrarem agora, façam o que eu mandei. E ele subiu.
Passados três meses, o cunhado foi lá e viu, do lado direito, o pé de cipó. No meio do olho direito, estava um pé de santa maria. Seus dedos já eram o jagube e seus fios de cabelo eram a rainha. E Duabussã disse:
- Para você cortar o cipó, me peça antes, pois sou eu quem estou ali. Se você não me pedir, eu nunca saberei o que você quer. Antes de utilizá-lo, olhe para mim e faça o pedido do que você quer e, de acordo com o que você desejar, eu me apresentarei para você. Dos meus olhos, nascerá a santa maria, a luz da floresta. Pegue-a, seque-a bem sequinha e faça um cigarro e fume. Cada trago, tem um sentimento. E foi exatamente o que aconteceu.Seu povo acreditou nele e viu que o que ele tinha dito, ele cumpriu e desde então o nosso povo tem trazido estas duas plantas com muito cuidado.
Este é um braço da história do cipó, mas tem muito mais pela frente. A história dura a noite toda pra ser contada. Começa as  6h da tarde e termina as 6h da manhã.

Os kamaiurá

Fonte: Poranduba; roda de histórias indígenas

domingo, 29 de julho de 2012

Visita de Ibã Huni Kuin

Visita do pajé, professor  e pesquisador Isaias Sales Ibã da etnia Kaxinawá do Acre à Escola Estadual Capitão Egídio de Lima - Timóteo - MG








sexta-feira, 27 de julho de 2012

História da Ayahuasca no Brasil


No site História da Ayahuasca no Brasil, o historiador Marcelo Henrique Xavier Ribeiro Borges disponibiliza o livro homônimo que centra-se na abordagem sobre a transposição das tradições ancestrais de comunhão da Ayahuasca às culturas urbanas do Brasil,  investigando a formação das chamadas ‘Linhas Raízes’ da ayahuasca no decorrer do século vinte (XX): O Daime, a Barquinha e a União do Vegetal.

Especialistas discutem como conciliar saberes tradicionais e pesquisas científicas


Como conciliar a Ciência e o uso de saberes tradicionais para o desenvolvimento do País? O ponto de interrogação é de especialistas e representantes indígenas que discutiram ontem (25) o tema central da 64ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) na mesa-redonda "Saberes Tradicionais e pesquisa científica - desenvolvimento de produtos e processos para enfrentar a pobreza". Realizado na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em São Luís, o evento encerra amanhã.
Na discussão, os especialistas destacaram a importância de investimentos em Educação, alinhados a investimentos em pesquisas científicas, a fim de explorar o potencial da biodiversidade brasileira. Reconheceram o uso de saberes tradicionais como "uma fonte valiosa de investigação científica e tecnológica para a criação de produtos". Consideraram também o potencial brasileiro para o desenvolvimento de medicamentos, por exemplo, já que o País historicamente acumula déficit bilionário na balança comercial de fármacos. Assim, contribuir para o desenvolvimento do País.    

A tendência é de uma mudança no atual modelo internacional de desenvolvimento econômico, uma vez que os saberes tradicionais passam a ser reconhecidos no avanço de uma nação. Nas palavras do antropólogo Alfredo Wagner Almeida, presidente do Programa Nova Cartografia Social da Amazônia, na primeira década do século XXI há uma significativa movimentação internacional para o reconhecimento de saberes tradicionais no processo de desenvolvimento. 

O ponto de partida para esse cenário, analisou o antropólogo, é a Convenção da Diversidade Biológica (CDB).  Fruto da Eco-92, conferência internacional realizada em 1992 no Rio de Janeiro, a Convenção já foi assinada por 175 países, dos quais 168 a ratificaram, incluindo o Brasil, via o Decreto Nº 2.519 de 16 de março de 1998. Em linhas gerais, a CDB propõe regras para assegurar a conservação e uso sustentável da biodiversidade e a justa repartição dos benefícios provenientes do uso econômico dos recursos genéticos.

"Um ponto importante é o reconhecimento internacional da igualdade jurídica da expressão cultural entre diferentes povos e comunidades. Esse é o ponto central. Hoje temos a igualdade jurídica", disse o antropólogo, também conselheiro da SBPC, que participou do debate de ontem.

A mesa de discussões foi dividida com a presença de Vanderlan da Silva Bolzani, professora titular do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da coordenação do Projeto Biota-Fapesp. E da advogada Fernanda Kaingang, dirigente do Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual (Inbrapi).

Ao fazer a abertura do evento, a secretária-geral da SBPC, Rute Andrade, também pesquisadora do Instituto Butantan (SP), avaliou que o debate deverá "contribuir muito" para o avanço da sociedade brasileira. Ela intermediou a mesa de discussão ontem.

Novos horizontes - Até então, o tema sobre os saberes tradicionais, segundo o antropólogo, limitava-se ao movimento indígena proposto pela Universidade e pelo Estado. Hoje, porém, a questão do uso dos conhecimentos milenares de vários povos foi ampliada: é um tema das universidades e dos movimentos sociais pautado em uma relação estratégica empresarial.

Benefícios da química verde - Por sua vez, a pesquisadora da Unesp, Vanderlan, considerou os benefícios econômicos provenientes da química verde de produtos naturais, como as plantas. Reconhecendo a importância do uso de saberes tradicionais, os atribuiu a "uma ferramenta útil" utilizada nas pesquisas sobre a ciência de plantas e no desenvolvimento tecnológico de produtos com alto valor agregado. Nesse caso, ela considera fundamental o investimento em pesquisa e em educação nos usos tradicionais para agregar valor aos conhecimentos milenares de vários povos. "Não se pode falar de um novo conhecimento e de inovação sem citar a Educação", alertou.

Como um exemplo bem sucedido sobre a apropriação da ciência nos conhecimentos tradicionais, Vanderlan citou o caso da planta Taxus brevifolia (Taxaceae) - nativa da costa ocidental da América do Norte (Ocorrência do Alasca à Califórnia). Era usada na medicina popular pelos nativos americanos como produtos "para dar força", induzir a transpiração, em tratamento de ferimentos internos e para a cura doenças pulmonares.  Pela sua resistência, a planta é usada tradicionalmente na elaboração de remos de canoa, molduras de quadro, marcenaria.

Resultado de 15 anos de pesquisa acadêmica, estimada em US$ 400 milhões, Vanderlan relatou que os cientistas descobriram que essa planta pode ser usada para tratamento de câncer de mama. Assim, em 1994, esse conhecimento científico foi aprovado pela FDA (agência reguladora de produtos alimentícios e farmacêuticos nos Estados Unidos) para o tratamento dessa doença.

"Isso mostra a importância da pesquisa científica de excelência sobre saberes tradicionais no desenvolvimento de produtos e processos", declarou a cientista da Unesp. Ela destacou que os saberes tradicionais dessa planta é um processo contínuo de desenvolvimento.

Potencial brasileiro - Vanderlan analisou o cenário atual do mercado mundial de produtos derivados de plantas e citou o potencial da biodiversidade brasileira que pode ser explorada pela pesquisa científica no processo de desenvolvimento de medicamentos, por exemplo. Com base em dados internacionais, Vanderlan disse que os gastos internacionais com a saúde são estimados em US$ 179 bilhões este ano.

A apresentação de Vanderlan revela que as espécies de plantas de uso tradicional utilizadas pelos índios da Amazônia "inspiraram" o desenvolvimento de uma classe de medicamentos anestésicos. Um exemplo é o Atracurium (Tracurium), um dos derivados sintéticos fundamentados na estrutura de Tubocurarina. A pesquisadora lembrou que a "introdução de tubocurarina na prática anestésica, por Griffith e Johnson, em 1942, provocou alterações profundas na anestesiologia."

Com base em estudo do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Vanderlan declarou que agregação de valores da cadeia produtiva de plantas medicinais é substancialmente maior do que a da soja. Segundo o estudo, o coeficiente de agregação de valor calculado para a cadeia de plantas medicinais é de 16,24, contra 2,22 da cadeia da soja.

Análise indígena - Ao avaliar as discussões, a dirigente do Inbrapi, Fernanda, reiterou o fato de os indígenas serem os protagonistas da conservação da biodiversidade brasileira, ao responderem hoje por mais de 13% do território nacional. Em uma alusão às empresas multinacionais que exploram a biodiversidade brasileira, a advogada disse faltar repartir os benefícios "com quem conserva os conhecimentos científicos". Ela chamou de "biopirataria" a exploração do conhecimento tradicional sem a contrapartida. A indígena também considerou fundamental promover a discussão sobre aplicação da "ética nas pesquisas" na comunidade acadêmica.

Desafios brasileiros - A indígena defendeu o avanço na tramitação da Medida Provisória (MP) 2.186-16, de 23/08/01, segundo a qual dispõe sobre o acesso ao patrimônio genético, a proteção e o acesso ao conhecimento tradicional associado, dentre outros normas que podem preservar o uso dos saberes tradicionais. A MP também prevê a repartição de benefícios e o acesso e a transferência de tecnologia para sua conservação e utilização.

O debate foi elogiado pela plateia - composta por dezenas de alunos, pesquisadores, professores e cientistas - que aplaudiu as discussões e contribuiu para esquentá-las. Um alerta partiu de um participante da plateia sobre testes de empresas que vêm ocorrendo na Amazônia para exploração de petróleo.

Ao final do debate, o secretário regional da SBPC no Maranhão, Luís Alves, recomendou a comunidade acadêmica a trabalhar com os elementos apresentados ontem. "Ela tem de mostrar que o bem comum tem de ser respeitado", disse ele, também médico patologista e professor da UFMA.

Alfredo Wagner também sugeriu ampliar o debate sobre como conciliar o uso de saberes tradicionais com as pesquisas científicas. "O consenso é mal porque ele é burro", disse ele, parafraseando Nelson Rodrigues e descartando o consenso nas discussões de ontem.

(Viviane Monteiro - Jornal da Ciência)

Fonte: Jornal da Ciência


quarta-feira, 25 de julho de 2012

Medicina da floresta - ritual de cura

  

A floresta tem espírito, a planta tem espiríto e através do canto, do rezo,a gente vê as coisas que precisa ver, cura o espírito, faz conexão com  a natureza para ser pessoas melhores e aprender mais. (Fala de Pajé)

 

terça-feira, 24 de julho de 2012

Belo Monte: uma guerra anunciada no Rio Xingu

Novo documentário expõe problemas enfrentados pelas populações ribeirinhas e comunidades indígenas com a construção de usina hidrelétrica


Foto: Funai

 por Kate Rintoul
O rio Amazonas e suas florestas sempre foram, de uma maneira ou de outra, usadas pelo homem – seja com extração de madeira ou recursos energéticos, por exemplo. Em menor escala, o rio e as florestas fornecem produtos e rendas para as comunidades locais.
Há aqueles, porém, que ainda não estão satisfeitos e procuram outras maneiras de extrair ainda mais do que as pessoas chamam de “pulmão da Terra” – devido ao fator climático da Amazônia, cujas árvores processam nosso lixo (gás carbônico) e nos oferece oxigênio em troca.
O documentário “Belo Monte, Anúncio de uma Guerra” apontou as atenções para essa direção, procurando sensibilizar a sociedade paras as preocupações sociais em torno da construção da barragem hidrelétrica de Belo Monte, no Estado do Pará.
A preocupação sobre este projeto já vem de algum tempo, e aqui no Reino Unido alguns podem se lembrar de celebridades como Sting chamando a atenção para o problema, o que não resultou em mudanças em longo prazo. Sabendo da necessidade de conscientizar mais pessoas sobre este assunto, nessa edição do The Brazilian Post decidimos aprofundar o tema.
A Amazônia já é responsável por fornecer 9% do total de energia do Brasil e a estimativa do governo é que aumentará até 25% se a usina de Belo Monte for construída, porém críticos ao projeto mostram que a real energia produzida será muito menor que a planejada.

Rio Xingu nasce em Mato Grosso, segue para o Pará e desagua no Rio Amazonas
O governo federal e o deputado federal Wandenkolk Goncalves (PSDB / PA) estão pintando um otimista e utópico retrato deste “desenvolvimento”, argumentando que a hidrelétrica será um “modelo” de desenvolvimento a ser seguido por outros Estados brasileiros. Na realidade, a companhia Norte Energias já está falhando em cumprir as metas estabelecidas no contrato inicial e todo o projeto está imerso em corrupção, mal entendidos e manifestações contrárias. Poucos podem vê-lo como um exemplo de desenvolvimento com responsabilidade.
Tanto quanto o rio Amazonas, a hidrelétrica de Belo Monte transpassa questões sociais, políticas e econômicas que ficaram imersas na superfície do Brasil moderno. A própria escala do projeto significa que o estudo de impactos não foi suficiente e talvez por isso o governo falhou em não facilitar o debate público e aberto sobre a questão.
A atual corrida do Brasil por desenvolvimento levou a um momento de grandiosos programas de construção. Alinhado ao novo status de líder mundial em energias renováveis, isso inspirou pesquisas em busca de formas experimentais de utilizar os recursos naturais do país.
Esse desenvolvimento ilimitado e fortalecimento econômico deveriam, é claro, ser bem vindos. Na realidade, porém, esse sucesso tem custos sociais e econômicos que muitos falharam em contabilizar. Alguns argumentam que a ideia de que o Brasil achou uma “fórmula mágica” para produzir energia limpa está equivocado, já que os custos sociais e ambientais não são contabilizados, deixando as comunidades e o povo brasileiro pagarem por esses custos ocultos.
O projeto da hidrelétrica de Belo Monte está sendo desenvolvido no coração de terras indígenas, o que complica ainda mais a questão e levanta debates que retornam ao Brasil colonial que destruiu, e para sempre, a ordem natural do país. Enquanto muito foi feito para proteger e manter os costumes e o ambiente onde vivem comunidades amazônicas, o projeto de Belo Monte prova como isso foi muito mais para a percepção do público do que realmente para reestabelecer o equilíbrio entre o poder dominante e as demais áreas que pretendem ter em sua posse.

Rio Xingu nasce em Mato Grosso, segue para o Pará e desagua no Rio Amazonas
O The Brazilian Post esteve com Joel Nixiwaka Yawanawa, da comunidade indígena Yawanawa, que habita a região norte do Pará, onde a hidrelétrica começa a ser construída. “Isso é triste para nós, é triste para todo mundo. Não apenas os indígenas, mas as pessoas brancas que vivem na beira do rio, os ribeirinhos. Nós pensamos que o projeto de Belo Monte vai destruir tudo na floresta e o rio também”, afirmou.
Segundo Joel, “este é um projeto de desenvolvimento do Brasil, o que é bom. Por um lado significa que o Brasil está crescendo, mas por outro lado esse projeto vai destruir toda a diversidade e os recursos naturais, toda riqueza que o Brasil tem, que é sua natureza, seus animais”.
“Outra questão importante são as vidas das pessoas que moram na região do Xingu, será uma catástrofe, uma destruição geral. Estamos num momento delicado. Mesmo que eu não viva ao lado do Xingu, a floresta é um todo. Nós pensamos que o governo brasileiro tem outras formas de criar energia, não necessariamente destruindo o rio”, argumentou Joel.
A comunidade afetada pelo desenvolvimento do projeto da hidrelétrica já está passando por tempos turbulentos, permanentes conflitos pela propriedade de terra e aumento da secularização. Alguns grupos encontram-se em estado de guerra civil, que só ficará pior com a chegada de um projeto desta dimensão. Já há denúncias de empresas pagando ilegalmente certos grupos sociais e figuras políticas locais para ganhar suporte ao seu trabalho. O que aumenta as tensões.
Joel concorda: “há muitas tribos que estão vivendo situações mais difíceis, há outras que têm suporte político institucional no Brasil. Nós temos formas de conversar com as pessoas e tentar achar modos de ajudá-las. Por trabalharmos com organizações internacionais aprendemos a discutir ideias e ter nossa voz efetivamente ouvida, mas não é o mesmo caso para aqueles que vivem na região do Xingu”.
A história do desenvolvimento do Brasil testemunhou atrocidades e terríveis atos desumanos. Quando povos indígenas e brancos viveram juntos, emergiram questões sociais. Desde as primeiras explorações na Amazônia, e mais recentemente com grandes obras de desenvolvimento na região, esses territórios tornaram-se degradados, com ruas cheias de bordéis, violência, prostituição e doenças.
A floresta e o rio também são cruciais para a preservação dos costumes locais e dos cultos indígenas. “Para nós é muito importante, nós fazemos contato com o mundo espiritual pela floresta. Nossa espiritualidade já foi ameaçada, chegamos a um ponto de quase não praticá-la. Nossa cultura estava desaparecendo, havíamos perdido nossa espiritualidade. Estávamos confusos, não sabíamos, não éramos brancos e também não sabíamos mais quem éramos”.

Para assistir ao filme acesse o site http://www.belomonteofilme.org/
A construção da hidrelétrica já começou e um grupo de documentaristas resolveu fazer algo para denunciar a questão, juntando-se ao crescente número de pessoas que estão se mobilizando contra o projeto, aumentando a consciência das pessoas para as questões sociais e ambientais que envolvem este projeto de desenvolvimento no Brasil.
O filme mostra uma pesquisa profunda sobre o projeto de Belo Monte, e levou dois anos para ser filmado, com 120 horas de imagens em três expedições à região do Xingu, cinco protestos e 90 entrevistas.
O filme foi financiado e produzido de maneira totalmente independente, o que garantiu a possibilidade de produzir uma investigação séria e sem restrições sobre o projeto. Isso permitiu aos produtores trabalharem com liberdade e sem medo durante a produção do vídeo, mas, quando chegou a etapa de edição, os mesmos estavam sem fundos para fazê-lo. Então se utilizaram da nova tecnologia de crowdfunding para finalizar o filme de maneira totalmente independente.
Utilizando o site de crowd-funding Catarse, os produtores do filme pediram suporte financeiro para editar e distribuir o filme online. Eles também acreditam que essa foi outra forma de aumentar a atenção do público para essa questão, dando possibilidades da população participar desse que é um dos grandes debates do Brasil moderno.
Nem todos os entrevistados do filme são contrários ao desenvolvimento do Brasil, de fato eles dão suporte a ele. Mas é interessante notar que especialistas em recursos hidrelétricos afirmam que a melhor maneira de limitar os efeitos negativos da usina de Belo Monte seria construir outras usinas em intervalos regulares ao longo do Rio Amazonas.

domingo, 22 de julho de 2012

Kene, tecelagem Huni kuin



Desenhos mágicos que reproduzem a natureza nas pinturas e tramas do algodão.

Kene Kuin



O Kene Kuin, desenho verdadeiro, é uma marca importante da identidade Kaxinawá. Os povos vizinhos (Kulina, Yaminawa, Kampa) não têm um estilo de desenho comparável ao kene kuin. Para os Kaxinawá o desenho é um elemento crucial na beleza da pessoa e das coisas
 
O corpo e o rosto são pintados com jenipapo por ocasião de festas, quando há visitas ou pelo simples prazer de se arrumar. Crianças muito pequenas não recebem desenho, mas são enegrecidas dos pés à cabeça com jenipapo. Meninos e meninas têm só uma parte do rosto coberto com desenho e os adultos têm o rosto todo pintado.

A pintura com jenipapo é uma atividade exclusivamente feminina. Em dias sem festa muitos andam sem desenho, mas quando um dos homens da casa traz jenipapo da mata, sempre há alguém que se anima a preparar tinta e chamar os outros para pintá-los. As pessoas que mais andam pintadas são as mulheres jovens; os homens menos, a não ser que sejam hóspedes.

O estilo do kene kuin contém uma variedade de motivos que têm nomes. Quando um motivo tem dois ou mais nomes, isto geralmente se deve à ambigüidade, típica do estilo Kaxinawá, entre fundo e figura. Os mesmos motivos, ou desenhos básicos, usados na pintura facial, são encontrados na pintura corporal, na cerâmica, na tecelagem, na cestaria e na pintura dos banquinhos.

Assim como nem sempre e nem todos os corpos são pintados, também nem todos os objetos keneya têm desenho. Panelas para cozinhar comida não são pintadas, mas pratos para servir comida podem sê-lo. A pintura é associada a uma fase de novidade na vida do objeto ou da pessoa, uma fase na qual é desejável enfatizar a superfície lisa e perfeita do corpo em questão. O desenho chama a atenção para as novidades na experiência visual, que anunciam eventos cruciais da vida. O desenho desaparece com o uso e só é refeito por ocasião de uma festa. Assim, coisas com o desenho ocupam um lugar especial na cultura Kaxinawá, como em outras culturas do ocidente amazônico.

Assista ao curta "BIMI, Mestra de Kenes" dirigido por Zezinho Yube. O vídeo, com produção do projeto Vídeo nas Aldeias , mostra a história de Bimi, uma das grandes mestres da arte da tecelagem Hunikui. Ela fala da sua aprendizagem e dos resguardos que uma tecelã deve respeitar.

sábado, 21 de julho de 2012

Entrevista com Ibã Huni Kuin

Povos da floresta Acreana





Pajé dá e tira vida. Para virar pajé, vai sozinho para a mata e amarra o corpo todo com envira. Deita numa encruzilhada com os braços e as pernas abertos. Primeiro vêm as borboletas da noite, os husu, elas cobrem seu corpo todinho. Vem os yuxin que comem os husu até chegar a tua cabeça. Aí você o abraça com força. Ele se transforma em murmuru, que tem espinho. Se você tiver força e não solta, o murmuru vai se transformar em cobra que se enrola no teu corpo. Você agüenta, ele se transforma em onça. Você continua segurando. E assim vai, até que você segura o nada. Você venceu a prova e daí fala, aí você explica que quer receber muka e ele te dá.[Siã Osair Sales]

Rapé: sua utilização e indicações




O rapé é um pó feito geralmente de tabaco e outras ervas e cinzas de árvores que são moídos e transformados em um pó fino e aromático que é aspirado ou soprado pelas narinas. Seu uso é ancestral e já esteve bem presente em diversos lugares e épocas. Porém seu aspecto mais interessante é o uso pelas tribos indígenas e pelos caboclos da floresta, que o utilizam para diversos fins, entre eles medicinais e cerimoniais. Tomei contato com rapé através de amigos de jornada que me apresentaram em momentos especiais, onde pude receber e perceber no rapé um aliado de valor, que assim como outras substâncias dos reinos vegetal, mineral e animal que existem nas florestas, estão ai para auxiliar e ensinar aqueles que puderem compreender que onde há vida, existe uma ciência, um ensinamento divino, que pode nos auxiliar em muitos aspectos, inclusive físicos, mentais e espirituais. 



Acredito na importancia da valorização dessa cultura e das medicinas naturais tradicionais e ancestrais existentes e na importancia do resgate histórico e preservação desses conhecimentos que correm o risco de desaparecer em meio a atual banalização de valores e de tudo que é simples e natural, que vivemos hoje. 


O TABACO

img O tabaco aqui citado não é industrializado, e sim o Tabaco Xamânico,uma planta ancestral. O Tabaco sempre foi considerado pelos índios como uma Planta de Poder, porém caiu em mau uso pelos brancos, perdendo sua força original e seu poder, sendo usado de forma viciante, responsável por terríveis males no organismo.
O tabaco selvagem é uma planta muito poderosa e curativa, em seu estado original e na forma correta de sua utilização. O tabaco é considerado uma das plantas mais sagradas do xamanismo. Ele fumado no Cachimbo Ritualístico, carrega as preces para o Universo.
É usado para fazer oferenda aos guardiões, ao Grande Mistério, etc. Fumar tabaco ( em ritual ) é evocar o Plano Espíritual.
Desde a aparição da Mulher Búfalo Branco para os nativos norte-americanos, o tabaco é considerado uma planta que traz claridade. Ele é o totem vegetal da Direção Leste, do Elemento Fogo. E, como tudo que é fogo, é ambíguo. Pode elevar, transmutar ou pode destruir. Quando o tabaco é utilizado espiritualmente, traz purificação, centramento, transforma energias negativas em positivas, serve de mensageiro. Quando utilizado como vício pode matar. É utilizado no Xamanismo Universal. No Peru é fumado em rituais na Pipa ( cachimbo ) e na forma de cigarro. Os ayahuasqueiros chegam a dizer que "Sin tabaco! Sin la Ayahuasca!" Geralmente o fumo não é tragado ( tragar é coisa do vício ).

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No Perú também extraem o mel de tabaco, um poderoso alterador de consciência.Podemos ver nos rituais afro ( candomblé, umbanda, etc) a utilização do tabaco pela entidades, fazendo purificações, passes, exorcismos, oferecer charutos em despachos,etc.
No Chanumpa (EUA), para cada pitada de tabaco, convida-se um espírito para participar do ritual. Ele também é ofertado para os espíritos, para o fogo, utilizado para abrir portais da mata, honrar a Criação, confeccionar bolsas medicinais, pacote de preces, etc.
O tabaco é uma planta de grande ajuda. Utilizada para defumação ou no Cachimbo Sagrado, ele pode, trazer novos começos para quem quer que o esteja usando ou para quaisquer projetos ou lugares para o qual ele é queimado.
O tabaco é considerado uma das plantas mais sagradas, por muitos povos nativos. Para os nativos norte americanos, quando fumado no Cachimbo Sagrado, ele carrega as preces para os espíritos. Com frequência, é usado para se fazer oferendas para os Espíritos Guardiões. Fumar tabaco é chamar o plano espiritual para ajudar. Segundo Sun Bear, se alguém fuma por diversão, estará continuamente chamando Espírito para sí com um falso alarme. A maior parte do tabaco comprado em lojas é misturado com material químico, nocivo à saude.
Existem estudos que dizem que o rapé tem o poder de ativar o sistema límbico do cérebro. Entre os mateiros brasileiros, eles utilizam-se do rapé, para se harmonizarem com os seres da floresta. Lembrando que o tabaco utilizado é sabiamente escolhido pelos mestres do rapé. O tabaco, que é chamado na região de Porronca, tem várias origens, ao longo do Rio Juruá, e obviamente, alguns se destacam pela qualidade e pela pureza, entretanto, são todos orgânicos, ou seja não levam venenos, pesticidas, herbicidas, defensivos ou outro produto de infame sinônimo na sua produção.
Como podemos perceber o Tabaco é e sempre será um valioso instrumento de Poder e Cura para os males que assombram os seres humanos. Porém, é preciso cuidado e sabedoria em seu uso, para não cairmos nas correntes do vício.

O RAPÉ INDÍGENA

O rapé é uma tradição cultural e espiritual do povo Yawanawá e de outras tribos da região. Ele é usado como consagração depois do trabalho, para desabafar, relaxar, esfriar a memória. Ele pode ser usado a qualquer hora e tira o enfado físico mental e espiritual, quando nasce um novo pensamento, uma idéia nova. O rapé é preparado com muito carinho, usando-se tabaco e cinzas de outras árvores, dentre elas o Tsunu.


Dentro da tradição Yawanawa, não se "aspira" o rapé. Ele é sempre "soprado" por outra pessoa ou por quem vai tomar o rapé. Soprado para dentro das narinas através de um instrumento tipo um bambu oco, o Tipí, e aplicado por um pajé ou por outra pessoa e provoca uma forte reação nos mais inexperientes. Seu efeito é rapido e após isso sente-se um grande bem estar e disposição, fora a limpeza das vias aéreas, que ele proporciona. Relatam que o rapé se usa para esfriar o corpo, pois quando se trabalha muito debaixo do sol, ao ir tomar banho de água fria das cacimbas, pode-se pegar um resfriado, e é bom cheirar rapé antes. Além de estimulante, portanto, o rapé também faz baixar a pressão. O rapé também é usado para caçar e para tirar a "panema" (preguiça) e na hora da cerimônia do Uni (ayahuasca). As duas energias se unem e o Uni vem com mais luz, mais perfeito, mais profundo.


A pessoa que aplica deve saber o que faz, pois tanto o modo como ele pega o pó da mão com o tipi, a maneira que assopra, e o que pensa quando assopra, influenciam positivamente, ou negativamente o trabalho. Ou seja, o mesmo rapé aplicado por duas pessoas diferentes certamente não será o mesmo rapé e, assim, o efeito também não será o mesmo. Também pode ser aplicado pela própria pessoa com um auto aplicador, um tipi bem curto, denominado Kuripe. Ele é bem curto, e cabe no espaço entre a boca e o nariz, e é pessoal, como escova de dentes.