da etnia Kaxinawá
Era um índio que era casado, pai de
dois filhos e morava próximo a um lago
bem antigo, onde várias pessoas haviam morado. Ele fez sua casa e foi morar
ali. O nome dele era Duabussã. Em um dia
que amanheceu chovendo, ele olhou para os seus filhos e resolveu caçar para
trazer alimentação para eles. Pegou sua flecha e saiu. Ele morava na beira de
um sangradouro. Ele saiu do sangradouro e começou a trilhar na beira do lago
até chegar próximo a um pé de jenipapo cheio de caça que vinha comer no
jenipapeiro.
Ele se alegrou e foi fazer uma espera,
uma tocaia. Ao entrar na tocaia, ele escutou algo mexer e, ao olhar, viu uma juriti das pernas vermelhas. Ele flechou
a juriti e quando chegou perto, viu que a juriti estava com um cordãozinho
vermelho na perna. Ele estranhou aquilo, pois não morava ninguém por ali. Colocou
a juriti na estopa dele e voltou para a tocaia.
Ao sentar na tocaia, novamente escutou
um ruído, e pensou: mais uma caça. Levantou-se,
e viu um jacamim mexendo na fruta do jenipapo. Ele flechou novamente e quando
foi pegar o jacamim, viu que havia um cordão verde na canela esquerda do
jacamim. Ele estranhou pensou: estou
pegando só caças criadas, mas vou levar assim mesmo. Colocou na capanga e
voltou para a espera.
Não demorou nada, escutou outro
ruído. Meio assombrado, ele viu uma [cutiara] roendo a fruta do jenipapo. Ele flechou a cutiara e,
ao pegá-la, viu que ela tinha um brinco na ponta da orelha. Ele ficou cabreiro e
decidiu voltar.
Arrumou suas coisas e começou a
escutar um vento muito forte e sons na
floresta. Atento e assustado, ele preparou sua flecha e viu uma anta se
aproximando. Sem olhar para os lados, a anta veio, pegou três jenipapos com a mão e saiu. Ela deu três assovios bem longos e, a cada
assovio, jogava um jenipapo no lago. E o Duabussã observava atento.
De repente, na visão dele, a anta se
transformou em um ser encantado. Em um minuto, a água do lago começou a
espumar, espumar, espumar lá onde o jenipapo havia sido jogado. E a água começou
a estrondar. Duabussã ficou assustado.
De repente, surgiu do meio do lago
uma mulher maravilhosa. Quando ele olhou para a anta, ela havia se transformado
em um belo homem, um ser encantado da floresta. A bela mulher saiu da água e começou
a namorar a anta. Duabussã ficou impressionado. Ao terminar de circular com a
anta em cima da terra, a mulher voltou e Duabussã não a viu mais. Atordoado,
ele pegou sua estopa e foi embora. Ao chegar
em casa, pôs as caças para os filhos, mas não se esquecia do que havia visto e passou
a noite pensando e resolveu voltar para fazer
o mesmo que a anta havia feito.
Às 4h da manhã, voltou ao local e fez
exatamente o mesmo : jogou os três jenipapos e, em menos de um minuto, a água começou a estrondar. Não aguentando a
força, Duabussã correu e se escondeu atrás de um pé de [samupemba] na beira do
lago. Olhando, ele viu que a bela mulher surgia das águas. A mulher olhou para todos
os lados procurando a anta e, como não a via, perguntou:
- Onde você está? Onde você se escondeu? O que está acontecendo?
Escondido, Duabussã se preparava para pegar a mulher que procurava a anta. Quando ela passou perto dele, ele a agarrou com força. A mulher gritava e ele, em silêncio, segurava-na. A mulher gritava pedindo para ser solta e, como Duabussã não a soltava, ela ameaçou transformar-se em uma serpente. Ele se manteve firme e ela transformou-se numa serpente enorme e Duabussã continuava segurando-a em silêncio. A mulher transformou-se num espinheiro que machucava a carne de Duabussã, mas ele continuou segurando com toda força. Ela se transformou em todos os seres da natureza para que ele a soltasse, mas Duabussã continuava segurando-a firmemente. Quando a mulher viu que não havia jeito de Duabussã soltá-la, ela falou:
-
Está bem. Já que você não me solta mesmo, eu quero saber o seu nome.
Duabussã respondeu:
- Quero saber o teu primeiro.
- Quero saber o teu primeiro.
- Eu sou a Sheribari.
- Eu sou Duabussã.
Então nós somos primos. Vamos nos casar.
- É verdade. Só que eu não sou daqui e venho de
uma família muito valente, de um outro
mundo que você não tem noção. Para casar com você, tenho de pedir permissão ao
meu pai. Agora você me solta pois já
estamos combinados.
Duabussã soltou a mulher que foi conversar com os seus parentes. Ela sumiu e em cinco minutos reapareceu detrás da samupemba e disse:
- Meu pai aceitou que nós nos casemos, mas antes preciso saber se você é solteiro porque se você tiver mulher, não vou me casar.
- Não, sou solteiro, disse Duabussã.
- Então estamos casados, agora você
vem comigo. Eu vou te levar para a minha terra, disse ela.
Sheribari
passou o colírio em Duabussã e pediu a ele:
- Feche os olhos. Ele fechou e ela pediu:
- Abra os olhos.
Quando ele abriu, viu que estava de pé na [cera] de um bananal, muito limpo e organizado. Ela disse:
- Agora, preste atenção.
E várias
pessoas começaram a se aproximar,
apontando a flecha para ele. Ela disse:
- Não mexa com ele, pois ele é meu marido e é primo de vocês. Antes de mexer com ele, mexam comigo.
Eles foram caminhando, passando por todos os parentes dela até chegarem próximos ao velho pai dela. Era um velho cabeludo com um vestido enorme, metade homem, metade encantado. Sentado e olhando para o Duabussã, o pai deu as boas vindas a ele e disse à filha:
- Cuide dele, pois enquanto você estiver cuidando dele, ele estará conosco.
Ela passou a cuidar dele durante todo o tempo. Até no sono, ela cuidava dando a ele as melhores imaginações. Ela sabia que, no primeiro descuido, os parentes dela o comeriam, pois eles eram de uma outra natureza. Ela não dormia e ficava no quarto fechado. Ele queria sair, conversar com as pessoas, mas ela não deixava e dizia:
- Não vá não. É muito perigoso, eu saberei a hora certa de você sair e falar com eles.
Vivendo assim, eles tiveram três filhos. Numa quinta-feira, enquanto Duabussã cochilava, a Sheribari sumiu. Quando ele acordou, não a vendo do lado dele, ele ficou preocupado. Ela tinha saído para pegar o cipó do lado de cá do mundo, na terra do Duabussã. Quando ela voltou, achando que ele ainda estava dormindo, viu que ele já acordara e que havia descoberto a escapada dela. Ele perguntou onde ela tinha ido e, como tudo ali tinha de ser verdadeiro, ela respondeu:
- Fui lá no seu mundo pegar o cipó, pois lá tem muito cipó, mas apenas um é o misterioso.
Ela levou o
cipó para o feitio e disse:
- Fui buscar o cipó no seu mundo para o meu pai preparar. Em homenagem aos três filhos que nós tivemos, eu sou a dona que permito que eles façam o ritual, mas você não tem permissão nem de ver o ritual. Para você ver, deverá permitir permissão ao meu pai. Duabussã disse:
- Eu vou porque sou seu marido e já me sinto integrado na sua família e tenho de trabalhar, ajudo no feitio também. Ela disse:
- Vá mas você não tem permissão. Vá fazer o trabalho com ele, mas não pode sair para nada, até para você urinar deve pedir para mim. E ela então abriu a porta para ele. Ele disse ao sogro que iria ajudar a fazer o cipó. O sogro olhou para ele e disse:
- Só pode
fazer o cipó quem agüentar beber o cipó.
E Duabussã disse:
- Eu aguento.
- Se você
está dizendo que agüenta, então está bem, pode participar. O nome deste cipó é
[Huni Pan]. Com isto aqui, estamos preparando um homem verdadeiro, um mestre
verdadeiro. Por isto, não se meta se não agüenta. Você agüenta mesmo?
- Agüento.
E Duabussã
participou de todo o feitio, toda a curação do cipó, prestando atenção em cada
detalhe do feitio. Finalmente, terminaram
o preparo do cipó às 5h da tarde.
E então o
sogro disse:
- Você já
pode ir tomar banho e se preparar para nós tomarmos o Nixi Pae, o cipó
verdadeiro.
Duabussã
ainda não sabia o que significava, pois
nunca tinha ouvido falar deste nome. Ele foi se preparar e quando eram 8h em
ponto, todos já estavam preparados sentados em roda. A mulher dele disse:
- Fique perto
de mim o tempo todo, não saia de perto de mim e não abra a boca nem um segundo.
E Duabussã
concordou. Às 9 horas, começou o despacho. O sogro dele levantou-se, bebeu a bebida e foi servindo um por um até
chegar a vez de Duabussã. O sogro serviu e ele bebeu tudo e sentou-se. Após
cinco minutos de silencio, o sogro dele começou a cantar bem baixinho. (cantos)
Não demorou
nada e veio a tranformação. Duabussã só via serpentes enormes querendo engoli-lo.
Ele não aguentou e saiu correndo e gritava:
- Meu Deus me
acuda que a cobra está me engolindo.
Todos ficaram
em silencio absoluto. Assustado, Duabussã ficou desconfiado. Sua mulher disse:
- Eu te falei
que você deveria ficar calado. Você detonou o meu pai. Aí é que esta a chave.
Agora meu pai não vai te perdoar. Ele vai te comer.
O ritual
parou completamente. Duabussã saiu levado por sua mulher. Ele ficou preocupado
mas satisfeito por ter compreendido bem. Passados cinco dias, todos estavam
trancados, e Duabussã não via o sogro, os parentes, não via ninguém.
Até que ele
disse à mulher que estava vendo um velhinho barbudo do outro lado de uma grota
envolto em uma fumaça de defumador. O velhinho estava fazendo um [paneiro] de
cipó titica. Ele pediu à mulher para ir ver o velhinho. Ela disse:
- Não vá que
ele é meu tio. É um pajé que não vai querer te receber e te ouvir. E Duabussã
insistiu:
- Eu quero ir
lá ver aquele feitio. Eu quero fazer o paneiro que ele está fazendo. A mulher
disse:
- Então vá e
volte logo. Apenas cumprimente ele e volte logo.
E Duabussã
foi. Chegando lá o tio dela olhou para ele e disse:
- Não tenho
tempo para perder com você não, só vou
te avisar para tomar cuidado porque seu sogro está se preparando para te
aboquinhar. Ele vai te comer. Eles já estão preparando um belo churrasco. E Duabussã
perguntou:
-Como eu posso
sair dessa?
O velho
disse:
- E muito
fácil, muito fácil.
Enquanto
isto, sua mulher não tirava o olho dele. E quando ela vacilou, o velho deu um
tapa nele. Duabussã caiu e escorregou para perto do sangradouro do roçado dele.
O tio da esposa dela era um bodó. A mulher perguntou:
- Cadê o meu
marido? Foi você que mandou ele embora e agora é você quem vai entrar no
churrasco. Começaram a brigar e o velho escapou dentro de uma goteira de uma
raiz de [pachubao].
Passados
muitos dias, Duabussã conseguiu chegar em casa. Quando sua mulher e seus filhos
o viram, ficaram muito alegres. Duabussã disse:
- Façam
rapidamente um altar, um jirau em cima da cumeeira da nossa maloca pois lá será
a minha morada. Muita água virá e o meu povo virá me procurar. Não falem que me
viram. E Duabussã se escondeu lá e não descia para nada.
Seus parentes
do outro mundo o procuravam por toda parte e como não o achavam foram se
acalmando e desistindo dele. Mas sua filha caçula sentia sua falta e continuou
insistindo em procurá-lo. Neste meio tempo, Duabussã sentiu vontade de sair
para ver os pássaros. E ele resolveu fazer um cocar de penas. E foi caçar um
tucano e flechou ele. Ele que nunca errava uma flecha, desta vez errou e a
flecha foi parar lá na beira do rio. Ele viu um jacu e flechou o jacu, mas
errou novamente. E na terceira flechada, ele errou novamente. E ele viu que
teria de buscar as flechas que tinham se acabado. Quando ele chegou perto do
rio, sua filha do outro mundo vinha descendo e o viu. Ela disse:
- Eu estava
te procurando, meu pai. Como você apenas me fez, agora eu vou te engolir. E
engoliu o dedão do pé dele. Ela resolveu chamar sua irmã mais velha que veio e
comeu até o joelho dele e a filha chamou a mãe e a mãe veio e comeu ele
inteiro.
Ele começou a
gritar pela família dele e a família veio e quando chegou viu que a serpente, a
jibóia já havia engolido ele. A família matou a jibóia e levou ele todo
quebrado, só o coração estava batendo.
- Vocês me
salvaram. Vou dizer duas coisas a vocês. Eu vou morrer e para vocês falarem
comigo façam o que estou mandando. Procurem todos os cipós da floresta e tragam
para mim.
Eles procuraram
todos os cipós até que encontraram o cipó certo.
- Agora
tragam todas as folhas que existe nesta floresta. E começaram a procurar todas
as folhas até que acharam a chakrona.
Trouxeram a
folha e ele disse:
- Agora
cortem-na em pedaços e batam-na. Quando terminaram de fazer o preparo, ele
disse ao cunhado:
- Vá chamar
todo o nosso povo da aldeia porque agora nos vamos subir para o céu. De agora
em diante, para falarem comigo vocês
devem fazer este preparo com este cipó e esta folha. De lá, através desta
bebida, eu vou dar os ensinamentos a
vocês. Eu tenho muito a dizer para vocês, mas só vou ensinar a partir deste feitio; vou morrer
e me enterrem em um lugar bem distante na floresta. Depois de três meses, do
meu lado direito, nascerá o cipó [ni huni] para vocês. Nestes três meses, eu me
transformarei neste cipó e é através dele que vocês se encontrarão comigo.
O cunhado
dele foi e quando chegou lá se distraiu com as mulheres bonitas que viu e esqueceu
de dar o recado. Quando o cunhado ouviu um barulho imenso, lembrou-se de dar o
recado. O povo se arrumou depressa e foi encontrar Duabussã que disse:
- Para vocês
me encontrarem agora, façam o que eu mandei. E ele subiu.
Passados três
meses, o cunhado foi lá e viu, do lado direito, o pé de cipó. No meio do olho
direito, estava um pé de santa maria. Seus dedos já eram o jagube e seus fios
de cabelo eram a rainha. E Duabussã disse:
- Para você
cortar o cipó, me peça antes, pois sou eu quem estou ali. Se você não me pedir,
eu nunca saberei o que você quer. Antes de utilizá-lo, olhe para mim e faça o
pedido do que você quer e, de acordo com o que você desejar, eu me apresentarei
para você. Dos meus olhos, nascerá a santa maria, a luz da floresta. Pegue-a,
seque-a bem sequinha e faça um cigarro e fume. Cada trago, tem um sentimento. E
foi exatamente o que aconteceu.Seu povo acreditou nele e viu que o que ele
tinha dito, ele cumpriu e desde então o nosso povo tem trazido estas duas
plantas com muito cuidado.
Este é um
braço da história do cipó, mas tem muito mais pela frente. A história dura a
noite toda pra ser contada. Começa as 6h
da tarde e termina as 6h da manhã.
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