A compreensão de que estamos todos conectados numa rede invisível e universal nos coloca a necessidade de preservar a humanidade do homem, defender a vida e a Mãe Terra. Mãe boa. De onde tudo brota e para onde tudo volta. Mas que demanda cuidados. oferendas. dádivas. Cecab Ancestral se propõe a disponibilizar e divulgar ensinamentos de nossas ancestralidades ameríndias, africanas,afro-brasileiras e universal. E assim a tradição permanece. Ela vem de antes e vai seguir em frente.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Huni Kuin, Sementes Verdadeiras.avi


Ícone de alerta

Huni Kuin, Sementes verdadeiras, contempla um pouco do dia a dia nas aldeias huni kuin, apresentando em abordagens temáticas as dimensões sociais, economicas, ambientais e espirituais da sustentabilidade índigena.

A 1ª parte é uma introdução com o preparativo para a festa mais importante dos Huni Kui, o mariri, realizado durante o festival Xina Bena (novo pensamento) Maio 2012 no Lago Lindo, Jordão, Acre - Brasil.

Na 2ª parte são abordados o sistema educacional e as praticas realizadas pelo povo Huni Kuî para transmitir seus ensinamentos e forma de se organizar nas aldeias de geração em geração, circulando as responsabilidades e lideranças, preservando sua cultura viva!

Na 3ªparte contemplamos um pouco da infinidade de plantas medicinais utilizadas pelo povo Huni Kuî, a diversidade de plantas indicada para terapias, curas e todo tipo de enfermidade garantem aos Huni Kuî saúde, vitalidade e clareza em sua espiritualidade desde o tempo de seus ancestrais.

Na 4ªparte podemos sentir o dia a dia das mulheres na aldeia, suas atividades e sua firme dedicação a sustentabilidade de suas aldeias. As mulheres Huni Kuî trabalham com artesanatos fazem as colheitas nos roçados, cuidam dos filhos, da família e ainda praticam seus ritos honrando o sagrado feminino, lindas e verdadeiras guerreiras Huni Kuî.

 Na 5ªparte são apontadas as atividades socioeconômicas, os cuidados do povo Huni Kuin para proteger a natureza e garantir sua sustentabilidade.
Na 6ªparte e a manifestação da mensagem, despertando para a importancia da vida e do nosso trabalho sobre a Mãe terra.

E por fim, o Mariri realizado nas aldeias, uma tradição do povo Huni Kuin que acontece frequentemente em suas aldeias, animando a vida nas aldeias e transmitindo para crianças e jovens a cultura tradicional de geralçao em geração, através dos cantos que trazem estórias, lendas e ensinamentos sobre os alimentos.

   Fonte  :   produzido por Terra, Guto do Mato e Lud Lúdica
                   em maio/junho de 2012, Floresta Amazônica, Jordão -Acre -Brasil                                      





sábado, 25 de agosto de 2012

PINTURA CORPORAL


A pintura corporal dos indios Brasileiros foi uma das primeiras coisa que chamou a atenção do colonizador português Pedro Vaz de Caminha ,em sua famosa carta ao rei D.Manuel I, já falava de ''uns pequenos ouriços que os índios traziam nas mãos e da nudeza colorida das índias.
Traziam alguns deles ouriços verdes,de arvores,que na cor,quase que queriam parecer de castanheiro;apenas que eram mais e mais pequenos.E os mesmos eram cheios de grãos vermelhos,pequenos que esmagados nos dedos,faziam tintas vermelhas,da que eles andavam tintos e quando se molhavam mais vermelhos ficavam''

Nas sociedades indígenas até hoje a pintura corporal tem grande significado é muito amplo,podemos ir da simples expressão de beleza e erotismo à indicação de preparação para a guerra,ou,até mesmo, como uma das formas de aplacar a ira dos dêmonios.Além de proteger o corpo dos raios de solares e das picadas de insetos,a ornamentação corporal é como se fosse a segunda ''pele'' do individuo: a social em substituição á biológica.O padrão da pintura e o local de sua localização no corpo revela o ''status''de seu detentor na sociedade.Fonte










 

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

sábado, 18 de agosto de 2012

MEDICINA HUNI KUIN

  

 Infinidades de plantas  medicinais utilizadas pelo povo Huni Kuin indicadas para terapias, curas e todo tipo de enfermidade ,garantindo assim saúde ,vitalidade e clareza na espiritualidade ,desde o tempo dos seus ancestrais

sábado, 11 de agosto de 2012

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

População indígena brasileira triplicou nos últimos 20 anos, diz IBGE

Hanrrikson de Andrade
Do UOL, no Rio

A população indígena brasileira triplicou nas últimas duas décadas, passando de 294 mil, em 1991, para 817,9 mil, segundo dados do Censo Demográfico 2010 divulgados nesta sexta-feira (10), que consideram tanto os residentes em terras indígenas (demarcadas) quanto os indígenas declarados fora delas.
Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), responsável pelo levantamento, houve uma pequena modificação na metodologia no último Censo. Além do quesito cor ou raça, que apontou que 817,9 mil pessoas se autodeclaram indígenas (dado é utilizado na comparação com pesquisas anteriores), uma segunda questão revelou que mais 78,9 mil se consideram indígenas por questões de tradições, costumes, cultura, entre outros. Com isso, o grupo passou a ter 896,9 mil pessoas. O objetivo foi evitar distorções.
De acordo com a  pesquisa, 63,8% desse total está em áreas rurais e 32,3%, em urbanas. Em relação à população total do país (que soma mais de 190 milhões de pessoas), os indígenas representam 0,4%, sendo que o Norte é a região onde eles estão em maior número: 342 mil.
A pesquisa catalogou ainda 274 idiomas distintos entre as 305 etnias encontradas --a maior é a tribo Tikúna, que corresponde a 6,8% do total de indígenas.

CENSO INDÍGENA

  • 896,9 mil

    pessoas
    O cálculo considera os 817,9 mil declarados no quesito cor ou raça e 78,9 mil que residiam em terras indígenas e se declararam de outra cor ou raça, mas se consideravam indígenas de acordo com aspectos como tradições, costumes, entre outros.
  • 505

    terras indígenas
    Áreas demarcadas que são habitadas tanto por pessoas que se declararam indígenas como por outros indivíduos.
  • 305

    etnias
    Segundo o IBGE, antes do Censo 2010, as pesquisas acadêmicas publicadas sobre o assunto trabalhavam com estimativa de 220 etnias. O número é surpreendente.
  • 204

    idiomas
    Considerando os indígenas com idade superior ou igual a cinco anos, 37,4% tinham como idioma usual alguma língua indígena e 76,9% se comunicavam prioritariamente em português.
IBGE - Censo 2010
Com apoio da Funai (Fundação Nacional do Índio), os técnicos do IBGE catalogaram 505 terras indígenas, o que corresponde a 12,5% do território brasileiro, que hoje tem pouco mais de 106 milhões de hectares.
Há 517,4 mil indígenas morando nessas áreas, sendo Yanomami (25,7 mil), que se divide entre Amazonas e Roraima, a de maior contingente populacional --representando 5% do total da população indígena brasileira.

Etnias e idiomas

Um desdobramento inédito do Censo Demográfico indica que a população indígena brasileira possui 305 etnias e 274 idiomas distintos, cuja maioria é derivada do tronco linguístico Tupi.
De acordo com a metodologia utilizada pelo IBGE, o conceito de etnia é tomado por "comunidades definidas a partir de afinidades linguísticas, culturais e sociais".
Segundo a diretora de pesquisa do instituto, Nilza Pereira, o número é surpreendente: "As pesquisas acadêmicas que foram divulgadas nos últimos anos trabalhavam com uma estimativa de 220 etnias. Descobrimos que muitas que eram dadas como extintas, na verdade, não estão".
"Observamos o ressurgimento de muitas etnias. Eles estão saindo da invisibilidade graças a esse desdobramento do Censo. O momento é propício", completou ela.
Das 305 etnias catalogadas, 250 estão dentro de áreas demarcadas e 300 fora das terras indígenas. De acordo com o IBGE, o cálculo considera que algumas etnias figuram em ambos os casos, das quais algumas são baseadas na resposta de uma única pessoa.
Segundo o Censo, considerando os indígenas com idade superior ou igual a cinco anos, 37,4% tinham como idioma usual alguma língua indígena e 76,9% se comunicavam prioritariamente em português.
As regiões nas quais as etnias mais preservam as suas línguas nativas são o Norte (55,2%) e o Centro-Oeste (57,1%), isto é, mais da metade da população indígena nessas regiões se encaixa em tal perfil. Já 16,3% dos indígenas com idade superior ou igual a cinco anos declararam não falar português.

Fonte :UOL


YAWANAWA's SHAMAN, TATA

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Direitos Humanos




                 "Houve extermínio sistemático de aldeias indígenas na ditadura militar"

Perseguido pela ditadura, José Humberto Costa do Nascimento, o Tiuré Potiguara, abandonou seu trabalho na Funai, viveu escondido na floresta amazônica e, após conseguir deixar o Brasil, foi reconhecido como refugiado pelo governo do Canadá. Agora, de volta ao país, ele aguarda a Comissão de Anistia julgar seu pedido de reconhecimento como vítima do regime e quer a ajudar a Comissão Nacional da Verdade a resgatar a história do que classifica como “genocídio indígena praticado pela ditadura”.
Brasília - Em entrevista exclusiva à Carta Maior, Tiuré descreve o que testemunhou das atrocidades cometidas pela ditadura contra os índios, critica a participação dos irmãos Vilas Boas no processo, cobra autonomia para as nações indígenas e reivindica que o país dê o passo histórico necessário para o reconhecimento dos povos originários que, segundo ele, embora não conste nos registros oficiais, são tão vítimas dos militares quando estudantes, operários, militantes e camponeses.

“Pode parecer irônico falar isso, mas a repressão, as torturas, as atrocidades cometidas no meio urbano parecem maior, parecem que doeram mais do que as que foram cometidas contra os índios. Hoje se fala em 400 desparecidos nas cidades, mas nós podemos falar em cinco mil desaparecidos indígenas, porque houve extermínio sistemático de aldeias. Era uma política de estado”, afirma.

Qual a sua etnia, a sua região de origem?
Eu sou da etnia potiguara, do litoral da Paraíba. Antes, nós ocupávamos um território que ia da Paraíba ao Maranhão. Hoje em dia, estamos reduzidos somente ao norte do estado, na costa.

E como foi seu envolvimento com a ditadura militar?

Na década de 1970, eu era funcionário da Funai e, lá dentro, eu pude ver a política oficial da ditadura com relação aos índios. Impossibilitado de conviver com aquilo, abandonei o órgão e, convidado pelo líder de uma aldeia parkatejê, fui embora para a Amazônia, ajudá-los a se organizar para combater os militares. A aldeia ficava no sul do Pará, numa região já marcada pelo combate à Guerrilha do Araguaia. Era uma região de forte presença dos militares.

E a ditadura tinha, de fato, essa política de dizimar aldeias, cometer abusos e violações de direitos humanos contra os indígenas?

Isso hoje tá comprovado. Havia um coronel chamado Amauri, chefe da Funai em Belém, que usava de todos os métodos para exploração, por exemplo, do ouro e da castanha do Pará, obrigando os índios a trabalharem em sistema de escravidão. Ele usava a repressão, a violência, atirava... o grupo parkatejê já era considerado exterminado. De 1964 até 1975, a etnia perdeu mais de mil pessoas. Um processo de dizimação mesmo, porque já estava em andamento a tática da ditadura de ocupação da Amazônia, com os grandes projetos, como a transamazônica. E todo esse projeto eu vi dentro da Funai, quando ainda trabalhava lá. E era um projeto já ditado pelos americanos. Eu tive acesso a diversos documentos. Eu não sabia ler em inglês, mas compreendida os relatórios do adido militar americano no Brasil. Então, já existia um entendimento para desocupação desta área para exploração dos grandes projetos, como Carajás, Tucuruí, as grandes linhas de transmissões, a ferrovia, Serra Pelada... e os índios atrapalhavam, porque estavam em cima dessa região.

E você participou ativamente da resistência indígena?
Sim, e em consequência disso, tive que ficar dois anos escondido na mata, porque o Exercito estava atrás de mim, a Polícia Federal tinha ordem para me prender. Como eu não pertencia à aldeia, eles achavam que era eu que estava acirrando os índios. Fui considerado subversivo, agitador, não podia sair. Eles iam até de helicóptero atrás de mim. A perseguição fui muito grande, não só para mim, mas para outras lideranças também. E houve mortes, sequestros, torturas que, por ocorrerem na floresta, por não se darem no ambiente urbano, era muito mais impune, muito mais abafada. Tanto é que até hoje se procuram os guerrilheiros do Araguaia.

Na floresta, os militares usaram de todas as atrocidades possíveis, porque acharam que iam ficar totalmente cobertos, que não haveria testemunhas e que esta história nunca viria à tona, como está acontecendo hoje. E obrigavam os índios, por exemplo, a ajudá-los a eliminar os guerrilheiros. Colocavam os índios na frente, como bate-paus, para identificar os acampamentos. Como foi o caso dos suruís.

E esses índios ainda estão vivos, podem ajudar a recontar a história, a localizar ossadas?

Eu mesmo passei por um cemitério de guerrilheiros quando estava na companhia dos suruís. Nós estávamos fazendo um levantamento da área suruí para saber se havia possibilidade de extrair castanha. Já havíamos feito isso com os parkatejês, que são vizinhos, e eles também queriam uma fonte de renda própria, para não ter mais que depender da Funai. E eu fui designado para ir ajudá-los. A gente andava muito pela mata e, em uma dessas caminhadas, o grupo que estava comigo falou: “Tiuré, aqui estão enterrados os camará”. Camará são os brancos que estavam na área, os guerrilheiros do Araguaia. Devem ter alguns desses índios vivos até hoje. Eles eram mais velhos do que eu. E se eu estou com 63 anos, então devem ter 70 ou 80 anos. E no lugar dava pra ver realmente que não tinha mata, que existiam algumas covas rasas, bem na beira de um rio. É claro que, depois, os índios viram também militares voltarem lá para as tais “operações limpeza”, a retirada dos ossos. Mas os militares não eram assim tão minuciosos. Ainda podem haver alguns vestígios da presença de guerrilheiros por lá. Neste cemitério específico, eu soube que haviam sido enterrados três guerrilheiros.

Como os suruís lidavam com a violência praticada pelos militares?
Isso acabava com eles. Os suruís tiveram muitas índias estupradas. Se você for hoje na aldeia, ainda há filhos de militares do Exército, de soldados e mesmo dos de patentes altas. Os militares fizeram campos de aviação na área. Os índios não podiam sair da aldeia. Toda a liberdade que eles tinham foi reduzida. E aqueles que não participavam das ações militares eram reprimidos e até mortos. Uns tinham que fugir dali. Então, os suruís foram vítimas, foram amordaçados dentro de seu próprio território, e obrigados a caçar os guerrilheiros, com quem eles já haviam estabelecido contato e relação de amizade. Porque, entre os guerrilheiros tinham dentistas, médicos que mantinham relações amistosas com eles. Iam na aldeia, trocavam milho, enfim, tinham um bom relacionamento antes da repressão chegar na floresta. Eles conheciam mesmo os guerrilheiros, e tinham conhecimento da região como a palma da mão. E, numa das ações, eles localizaram um acampamento, foram na frente, e o Exército chegou atrás, pegou os guerrilheiros totalmente desprevenidos, sem condições de reação. Os militares executaram todos eles e ainda obrigaram os índios a participar do ritual de corte de cabeças. Quando eu cheguei na aldeia, uns dois anos depois, esse ritual ainda afetava muito os suruís. Achavam que foi uma prática tão bárbara contra outro ser humano que não conseguiam superar.

Você já pediu reparação ao estado brasileiro pelos crimes cometidos contra você?

Eu já dei entrada no pedido de anistia política. Não pelo dinheiro, mas por acreditar que meu reconhecimento como anistiado vai abrir uma porta para que outros índios, como os suruís, também consigam. Eu também já me coloquei à disposição para voltar a área, recuperar a confiança dos suruís e pedir que eles ajudem os brancos a localizar os corpos dos camarás, para que as respectivas famílias possam fazer os devidos rituais para os seus mortos. Para que possam vencer essa etapa da sua história. Estou aguardando o retorno das autoridades, mas até agora nada.

Você acha que existe algum tipo de resistência em incluir os índios como vítimas da ditadura? Como se os índios fossem os excluídos dos excluídos?

A sociedade brasileira vem de uma herança colonizadora que já soma 500 anos de exclusão indígena. Até hoje nós não temos nossa história contada por nós mesmos. Há sempre uma história oficial que se sobrepõe. Então, esse reencontro da sociedade branca com a sociedade indígena, a tal reconciliação de que tanto se fala hoje, passa por esse reconhecimento do outro, pela aceitação dos primeiros habitantes desta terra, da sua cultura, da sua herança cultural para o povo brasileiro. Infelizmente, ainda não temos esse respeito. A resistência à aceitação dos índios como vítimas da ditadura é muito grande. Pode parecer irônico falar isso, mas a repressão, as torturas, as atrocidades cometidas no meio urbano parecem maior, parecem que doeram mais do que as que foram cometidas contra os índios. Hoje se fala em 400 desparecidos nas cidades, mas nós podemos falar em cinco mil desaparecidos indígenas, porque houve extermínio sistemático de aldeias. Era política de estado. Então, nós estamos tentando levantar essa documentação para comprovar isso. Tem muita coisa que foi publicada no exterior, e também estamos buscando os documentos existentes no Brasil. E, principalmente, os relatos de pessoas que ainda estão vivas. Que estão velhos, mas estão vivos.

É a oportunidade do estado brasileiro dar um passo a frente no reconhecimento do outro, do índios brasileiro que foi afetado não só pela ditadura, mas é até hoje. É a questão da terra, do desenvolvimento impulsionado de cima para baixo. Seja a soja, o minério, a exploração dos recursos hídricos dos territórios indígenas. No Canadá, eu participei do movimento indígena canadense e é muito diferente daqui.

Você viveu no Canadá, quando?
Eu fui em 1985 porque, quando se fala em abertura política, estamos falando de uma questão teórica, porque a ditadura continuava, principalmente no meio do mato, no interior. Dura até hoje. O coronelismo ainda está lá. O poder político, os currais eleitorais, estão lá. Os assassinatos das lideranças indígenas e das lideranças rurais, as queimas de arquivo, a impunidade, tudo isso continua. E se eu saí do país em 1985, é porque já não existia mais nenhuma possibilidade para mim. Se eu não saísse, eu não estaria hoje aqui contando essa história. Foi a possibilidade de consciência, porque muitos outros índios não tiveram condições de sair. No Canadá, pedi reconhecimento como refugiado político. Foi um processo longo, que levou cinco anos de investigações. O governo canadense até veio ao Brasil investigar minha história. E eu consegui provar tudo o que dizia. Considero o meu reconhecimento como refugiado como uma condenação do Brasil. A primeira condenação por violações aos direitos de um índio. O assunto teve grande repercussão na imprensa internacional.

E como é no Canadá?
É claro que o Canadá não é um paraíso para os índios, mas eles estão bem mais avançados nessas questões de direitos humanos. Eles já participam dos royalties, por exemplo, das companhias que exploram petróleo, que utilizam os recursos hídricos, através de hidrelétricas. Eles participam dos lucros das empresas e os gerem de forma mais autônoma.

Então, você discorda dessa política brasileira de tutela dos índios?
Claramente. Hoje se fala muito em autossuficiência, se fala em autossustentabilidade, mas não se dar autonomia financeira para os índios. O que se tem hoje são migalhas, reparações financeiras que só resolvem o problema temporário. Essas indenizações não significam nada. Nós queremos é participar dos lucros dessas empresas. Nós queremos ter a nossa universidade. Eu estudei numa universidade indígena canadense financiada com os recursos dos indígenas, com professores indígenas. Nós queremos universidades nas nossas áreas, queremos hospitais para atendimento 24 horas nos nossos territórios. Nós temos um problema grave em educação e saúde que não se resolve com indenizações pontuais. Na minha área potiguara, ainda há uma usina funcionando que foi instalada pela ditadura. A maior reserva de titânio do Brasil tá lá na nossa área. E uma mineradora explora. E tem uma aldeia há 4 Km dessa exploração em que as pessoas estão morrendo à míngua. É uma situação insustentável. Tem que haver uma mudança. Temos que discutir a participação nos lucros dessas empresas.

Assim como os estados estão brigando pelos royalties, nós também, os primeiros povos, queremos royalties, porque estamos sendo explorados em nosso território. Na época da ditadura, o Exército entrou na nossa área [Potiguara] e garantiu terras para grandes latifundiários e grandes companhias internacionais. Nós perdemos um terço do nosso território durante a ditadura. Eles deram até um atestado de óbito para nosso povo, dizendo que não existiam mais potiguaras na área. E com esta certidão negativa, conseguiram financiamento do Banco Mundial. A Funai é responsável por tudo que aconteceu com o povo indígena.

Na sua experiência na Funai, você deve ter convivido com os irmãos Villas Boas. Qual foi o papel deles neste contexto todo?
Eu tenho uma crítica muito grande aos Villas Boas. Eles são considerados os humanistas, não sei nem como ainda não foram laureados pelo Nobel, porque conseguiram uma publicidade incrível. Mas eles participaram desse processo de aprisionamento das nações indígenas, como se quisessem criar um zoológico. O Xingu é isso. Na época da ditadura, os interesses de deslocar as aldeias para desenvolvimento da economia levou os militares a usar os Villas Boas para criar aquele Parque do Xingu, que não é nada mais do que você colocar diferentes aldeias, muitas delas que viviam em guerra culturais seculares, todas juntas. Línguas diferentes, culturas diferentes, tudo no mesmo território. E os Villas Boas participaram disso e acabaram criando um cenário de propaganda do regime.

O Xingu virou o cartão postal da política indigenista. Aquela coisa mais supérflua, mais teatral, para os militares promoverem festas e lotarem aviões de gente par aos verem sendo fotografados com os índios. Para mim, os Villas Boas foram complacentes com a ditadura. Olha, eu entrei na Funai com a visão de que a política dos militares para os índios era aquela do Marechal Rondon: “morrer se for preciso, mas matar nunca”. Mas, na verdade, a cartilha deles era o contrário, era a cartilha americana: “índio bom é índio morto”. Então, temos que desmistificar essas histórias impostas pelo regime e contar a nossa história. É isso o que esperamos da Comissão Nacional da Verdade, da Comissão da Anistia.

Hoje, você milita em alguma organização indígena?
Não. Eu estou ligado a minha aldeia, uma aldeia pequena. Não sou de partido nenhum, não pertenço a nenhuma ONG. A minha intenção é criar uma resistência indígena nacional. É com este intuito que voltei ao Brasil. O movimento indígena, na minha época, tentava se organizar. Hoje, há muitas lideranças cooptadas, com cargos no governo, na Funai, com acordos desvantajosos com a iniciativa privada. Por isso, minha intenção é ajudar na conscientização pra gente fazer um levante revolucionário, para retomarmos nossas terras.

 Fonte : Carta Maior

sábado, 4 de agosto de 2012

Povos Tukano

Fonte: Poranduba; roda de histórias indígenas

XINÃYA :TATÁ UM SÁBIO DA FLORESTA




O documentário "Xinãya: Tatá um Sábio da Floresta" registra conhecimentos milenares do 
povo Yawanawa, do ponto de vista de um dos dois únicos anciões ainda vivos na comunidade, o pajé conhecido como Tatá, com seus 86 anos, morador da aldeia...
Mutum, na Terra Indígena Yawanawa do Rio Gregório, Acre.

Através de sua história de vida e seu aprendizado com grandes pajés que vivenciaram os tempos em que os Yawanawa ainda viviam em malocas, Tatá irá compartilhar, na língua nativa Yawanawa, histórias da mitologia do povo, como surgiram e viviam antes, seus costumes, pinturas, modos de plantio, rezas e pajelanças, a iniciação dos pajés, o uso das plantas medicinais, batismos e cantorias do mundo dos antigos, que hoje, ainda pouco se tem conhecimento entre os jovens da aldeia.

Diante da relevância de se registrar urgentemente pela primeira vez os ensinamentos do pajé Tatá, a Associação Sociocultural Yawanawa em parceria com o IGF Instituto Guardiões da Floresta, vem propor a produção do documentário Xinãya:Tatá um Sábio da Floresta, que manterá estes conhecimentos para sempre vivos dentro do povo Yawanawa e será responsável por uma atualização da memória cultural deste povo, aonde professores indígenas, aprendizes de pajé, pais e jovens poderão se embasar para resgatar sua ancestralidade e manter suas tradições.

“A importância de nós, Yawanawa, estarmos aqui dentro desta floresta, preservando e cuidando de tudo, desde os nossos ancestrais, é uma missão que a gente vem segurando com muita responsabilidade até hoje.

Depois do contato com o homem branco, nós tivemos muitas perdas de cultura e costumes tradicionais. Quando os missionários entraram nas nossas terras diziam que tudo o que o pajé fazia, uma cura para uma pessoa ou quando ele usava o vaso de cerâmica para fazer um tratamento espiritual, eles falavam que aquilo não era bom, que estávamos usando uma força muito negativa e que não era bom para o nosso povo. Então muitas coisas mudaram, muitas coisas ficaram diferentes. O povo não quis mais saber de tomar nossa bebida sagrada, de tomar o rapé, de fazer dieta... de lembrar a importância que tem nosso povo, e isso foi muito triste.

Mas depois de um tempo, nós começamos a ver a importância de manter este conhecimento vivo e quando a gente foi perceber, neste momento, a gente tinha apenas três homens sábios ainda vivos dentro do nosso povo: meu pai, o Tatá e o Yawarani.

No ano passado meu pai faleceu, e nós tivemos uma perda muito grande, principalmente porque a maioria não aprendeu todo aquele conhecimento que ele tinha. Ele já havia falado muitas vezes, ele tinha muitas visões, dizia que o povo que não tem sua tradição, educação e sem os seus costumes espirituais, ele é um povo morto, um rio sem peixe, uma floresta sem animais, é um vazio. Para o povo ser forte, guerreiro, deixar sua história e continuar como povo, tem que estar firme na sua cultura.

Hoje, ainda restam dentro do povo Yawanawa inteiro, apenas dois pajés muito fortes, o Tatá, que mora aqui na aldeia Mutum, e o Yawarani, lá na aldeia Nova Esperança, mas eles já estão muito velhinhos e nossa preocupação é que este conhecimento se perca em pouco tempo, porque a nossa vida é como uma luz, a qualquer momento pode se acabar.

Como seria se a gente perdesse tudo isso agora?

Nós recebemos uma mensagem da floresta, vinda dos nossos guias espirituais, dizendo que a gente tem que aproveitar estes momentos que o pajé Tatá ainda tem de vida.

E hoje, existe uma facilidade, do povo branco, não em nós, com materiais que a gente pode gravar. A gente pode manter isso, pode registrar todo o conhecimento do pajé e manter dentro do nosso povo. A gente guardando isso, a gente vai manter para sempre estes velhos no nosso meio. Estes conhecimentos podem passar pra nós e com eles a gente poderá dar continuidade ao nosso povo, educando, mantendo nossa espiritualidade, mantendo nossa floresta viva como ela sempre foi.

Então nós nos preocupamos muito com tudo isso, porque temos apenas dois velhos e precisamos muito deles. Já tivemos muitas perdas e a nossa mensagem não é deixar isso só para os Yawanawa, mas também levar esta mensagem da floresta, esta energia boa, para as pessoas verem, e o mundo inteiro sentir qual a importância de mantermos tudo isso vivo. Esta é a nossa mensagem.” (Matsini Yawanawa, jovem liderança.)


Fonte: Instituto Guardiões da Floresta